Chuck termina como a fábula nerd definitiva
Posted By Marcel Plasse On 29 de janeiro de 2012 @ 21:08 In Capa,Séries | 8 Comments
[1]O último episódio da série “Chuck” foi ao ar na noite de sexta (27/1) nos EUA. E, diferente de outras ocasiões, em que os roteiristas planejaram e escreveram episódios prevendo seu desfecho, apenas para ver a história milagrosamente salva do cancelamento para uma nova temporada, desta vez “Chuck” não voltará mais.
Pode-se argumentar que o final não foi o que os fãs esperavam. Mas tudo foi inesperado na trajetória de Chuck Bartowski, o nerd que abandonou a faculdade e a fama no submundo hacker para viver uma vida fracassada nos subúrbios, fazendo assistência técnica a computadores vendidos por uma loja de eletrodomésticos. Isto é, até que, cinco anos atrás, ele baixou um programa secreto do governo e se tornou um superespião amador.
[2]O piloto escrito por Josh Schwartz (criador de “Gossip Girl” e “The O.C.”) e seu amigo de faculdade, o estreante Chris Fedak, era uma comédia de ação, que partia da típica fantasia nerd – o cara comum que vira espião – para divertir com cenas de pastelão e ritmo de aventura.
A responsabilidade de fazer os clichês funcionarem estava depositada nos ombros de Zachary Levi (da série “Less Than Perfect”), intérprete do Chuck titular. Mas, desde a primeira aparição em cena, não havia dúvidas sobre quem realmente garantiria a audiência: a então obscura atriz australiana Yvonne Strohovski, intérprete da loira fatal Sarah Walker, agente de CIA designada a monitorar e explorar Chuck como um recurso para missões de espionagem.
[3]A química já era clara no piloto. O nerd medroso e a loira gélida formaram um par perfeito. Forçados a viver um romance de fachada pela CIA, os opostos inevitavelmente seguiram as leis da física. Ao longo de cinco anos, o público presenciou a primeira missão, o primeiro beijo, a primeira briga, o começo do namoro, o noivado, o casamento e os planos para o resto de suas vidas. Considerada uma comédia de ação, “Chuck” acabou revelando o coração de uma novela romântica.
Yvonne Strahovski chegou a protestar com os roteiristas contra a resolução desse enredo. E aí vai spoiler. No final, um vilão (Angus Macfadyen, de “Equilibrium”) praticamente saído dos filmes antigos de James Bond, apaga a memória de Sarah, mandando-a matar Chuck. E, embora a missão seja interrompida, ela não recupera as lembranças de seu amor no desfecho de partir o coração.
[4]Mas resta uma esperança no último take. Uma fantasia do amigo ainda mais nerd de Chuck, o baixinho Morgan Grimes (vivido por Joshua Gomez), que acredita em finais de contos de fada: um beijo. Um beijo mágico, capaz de fazer Sarah lembrar de tudo, encerrando seu pesadelo nos lábios do Príncipe Encantado.
Há ainda mais camadas nesta referência. A locação perfeita, à beira de uma praia deserta de clima frio americano. A garota que não lembra de sua paixão. E os flashbacks de memórias perdidas. Tudo isso remete à “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, a sci-fi romântica-esquisita-cult escrita por Charlie Kaufman e dirigida por Michel Gondry em 2004.
[5]A praia em questão não é a Mountauk do cinema, porém, nas bonecas chinesas que se abrem no intertexto, remete à locação da primeira conversa íntima, do primeiro episódio, entre Chuck e Sarah.
O prazer de assistir “Chuck” sempre envolveu suas referências. E o final ainda teve direito a um plano de assassinato durante um concerto sinfônico, tirado da manga de Alfred Hitchcock – mais especificamente do clímax de “O Homem que Sabia Demais” (versão de 1956), agora em versão high tech.
[6]Ao longo de sua produção, a série também caprichou em sua lista de astros convidados. Validando suas credenciais de espionagem, contou até com um ex-007, o ator Timothy Dalton (“007 – Marcado para Morrer”), num papel recorrente de vilão.
A trama também apresentou Scott Bakula (das séries “Quantum Leap” e “Enterprise”) e Linda Hamilton (dos dois primeiros “O Exterminador do Futuro”) como pais do protagonista. E fez desfilar uma galeria invejável de vilões, femme fatales e aliados, entre os quais se destacam as participações de Carrie-Anne Moss (“Matrix), Brandon Routh (“Superman – O Retorno”), Kristin Kreuk (“Smallville”), Jordana Brewster (da franquia “Velozes e Furiosos”), Dolph Lundgren (“Os Mercenários”), Arnold Vosloo (franquia “A Múmia”), Ray Wise (série “Twin Peaks”), Chevy Chase (“Férias Frustradas”, “Golpe Sujo”), Rachel Bilson (“The O.C.”), Bruce Boxleitner (franquia “Tron”), Richard Chamberlain (“Pássaros Feridos”), Matt Bomer (série “White Collar”), Tony Todd (franquia “Premonição”), Bo Derek (“Mulher Nota 10″), Stan Lee (“Homem-Aranha”), Summer Glau (série “Terminator: The Sarah Connor Chronicles”), Olivia Munn (série “Perfect Couples”), Armand Assante (“1492 – A Conquista do Paraíso”), Robert Englund (“A Hora do Pesadelo”), Christopher Lloyd (“De Volta para o Futuro”), Tony Hale (série “Arrested Development”) etc.
[7]Do pôster original de “Tron” (1983) no quarto do protagonista à participação do próprio Tron, o ator Bruce Boxleitner, “Chuck” representou um oasis de referências geek para seu público mais velho, com direito a abundância de diálogos sobre “Star Trek” e “Star Wars” – lembrando que o pai de Chuck foi um capitão da Enterprise em outra série.
A série também caprichou nos takes da fetichização de Yvonne Strahovski, em disfarces envolvendo trajes mínimos, em cenas de nudez sugerida, em closes de seu pezinho em busca de uma chave distante, em lutas com outras garotas ou amarrada conforme os manuais de bondage.
[8]Fantasia sexual, geek, mas também de afirmação. Em “Chuck”, o nerd ficaria com a loira. O cunhado atlético (Ryan McPartlin) se tornaria seu fã. O espião linha dura (Adam Baldwin) lhe respeitaria. Seu lugar tedioso de trabalho se tornaria uma base secreta. E seu melhor amigo atrapalhado também teria direito a salvar o dia e viver aventuras a seu lado.
“Chuck” foi uma completa e definitiva fábula nerd. E só poderia terminar com um beijo para despertar a Princesa do feitiço invejoso. Ninguém duvida que, após a câmera se afastar e a ambiguidade marcar a cena final, eles viveram felizes para sempre. Uma das melhores séries dos últimos tempos só poderia ter um final que desse o que falar.
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